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lágrima

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(amália rodrigues)
Cheia de penas me deito
E com mais penas me levanto
Já me ficou no meu peito
O jeito de te querer tanto

Tenho por meu desespero
Dentro de mim o castigo
Eu digo que não te quero
E de noite sonho contigo

Se considero que um dia hei-de morrer
No desespero que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile no chão
E deixo-me adormecer

Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias de chorar
Por uma lágrima tua
Que alegria me deixaria matar

amália rodrigues

Caravelas

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Florbela Espanca
Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar, já me perdi
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construi
Em trágica loucura as destrui
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim
este mar morto
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!

Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao mar
As que eu lancei à vida, e não voltaram...
Florbela Espanca

Meu Corpo

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Ary dos Santos
Meu corpo
É um barco sem ter porto
Tempestade no mar morto, sem ti.
Teu corpo
É apenas um deserto
Quando não me encontro perto, de ti.
Meus olhos
São as lágrimas do Tejo
Onde fico e me revejo, sem ti.

Quem parte de tão perto nunca leva
As saudades da partida
e as amarras de quem sofre.
Quem fica é que se lembra toda a vida
Da saudade de quem parte
e dos olhos de quem morre.

Não sei
Se o orgulho da tristeza
Nos dói mais do que a pobreza, não sei.
Mas sei
Que estou para sempre presa
Á ternura sem defesa, que eu dei.
Sozinha
Numa casa que é só minha
Espero o teu corpo que eu tinha, só meu.

Se ouvires
O chorar de uma criança
Ou o grito da vingança, sou eu.
Sou eu
De cabelo solto ao vento
Com olhar e pensamento, no teu.
Sou eu
Na raiz do pensamento
Contra ti e contra o tempo, sou eu.

Ary dos Santos