sexta-feira, julho 06, 2012

Água louca da Ribeira





Água louca da Ribeira,
Que corres em cavalgada,
Porque não vais devagar?
Essa corrida é cegueira...
Não vês, nem olhas p'ra nada,
Na pressa de ver o mar!

Já corri dessa maneira,
Nas asas duma ilusão,
Na loucura de chegar...
Fui deixando pela ladeira,
Pedaços do coração,
Beijos loucos, sem amar!

Vida que foste vivida
A correr tão velozmente,
Paraste à beira do mar...
Agora, vives perdida,
São saudades, o que sentes,
Por não poderes regressar 


Armando Varejão

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Tentei fugir da mancha mais escura

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

David Mourão-Ferreira

domingo, abril 18, 2010

Princesa Prometida

(Pablo Picasso "Mulher ao Espelho" - copiado em: http://www.brustin.com.br/wordpress/tag/mulher-ao-espelho/) 
Há um véu no meu olhar
Que a brilhar dá que pensar
Nos mistérios da beleza
Espelho meu que aconteceu
Do que é teu e do que é meu
Já não temos a certeza

A moldura deste espelho
Espelho feito de oiro velho
Tem os traços de uma flor
Muitas vezes foi partido
Prometido e proibido
Aos encantos do amor

Espelho meu diz a verdade
Da idade da saudade
À mulher envelhecida
Segue em frente na memória
Mata a glória dessa história
Da princesa prometida
Aldina Duarte

sexta-feira, abril 16, 2010

princesa prometida - aldina duarte

Quando partiste



(Foto desconhecida - retirada em http://www.striperonline.com/pictures/reports_2003/full_moon_9_10_03.jpg)


Quando partiste foram contigo os meus desejos
quando partiste foram contigo os meus abraços
vivo agora a mendigar teus falsos beijos
ouvindo os risos que tu dás aos meus fracassos
quando partiste nunca supus que à despedida
ia contigo naufragar a minha vida

Não te posso censurar sei bem
podes dar a quem quiseres teu calor
mas se um dia tu ouvires alguém
louco por ti chamar amor
Sou eu sou eu sou eu 
que nunca te esqueci
e sei amor meu bem
que te perdi

Quando partiste julguei vencer o desespero
quando partiste julguei vencer a solidão
menti menti para não contar o que te quero
mas já sem forças o meu pobre coração
pus me a chorar
pus me a gritar que na verdade 
é tão cruel a voz amarga da saudade

Não te posso censurar sei bem
podes dar a quem quiseres calor
mas se um dia tu ouvires alguém
louco por ti chamar amor

 Sou eu sou eu sou eu 
que nunca te esqueci
e sei amor meu bem
que te perdi


Paco Gonzales

segunda-feira, maio 09, 2005

há uma musica do povo


(fernando pessoa)

Há uma musica do Povo
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado…
Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser…
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver…
Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção…
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração…
Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido…
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!


fernando pessoa

terça-feira, abril 26, 2005

Acetei o testemunho que passou a amiga charlotte
e ai vai...
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
seria um livro aberto...

Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
sim, o sete-luas do "memorial do convento" de saramago...

Qual foi o último livro que compraste?
"hei-de amar uma pedra" de a.l.antunes

Que livros estás a ler?
nenhum...

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
"o senhor dos aneis" de tolkien
"austerlitz" de sebald
"o dicionario da lingua portuguesa"
"memoria de elefante"de a.l.antunes
"codigo da vinci" de d.brown


A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
à nina
por ser uma pessoa de quem eu quero saber o que lhe interessa...
à dulce porque também me interessa o que ela acha e
à lina
porque é uma amiga que gosto imenso...

sexta-feira, abril 01, 2005

o espaço e o tempo



(pintura de manuela pinheiro "solidão em bola de balão")

O tempo com que conto e não dispenso
Não limita o espaço do que sou
Por isso aparente contrasenso
De tanto que te roubo e que te dou

No tempo que tenho te convenço
Que mesmo os teus limites ultrapasso
Sobras do tempo em que te pertenço
Mas cabes inteirinha no meu espaço

Não sei qual de nós dois veio atrasado
Ou qual dessas metades vou roubando
Entraste no meu tempo já fechado
Ganhando o espaço que me vai sobrando

Por isso não me firas com o teu grito
O espaço não dá tempo à solidão
Não queiras todo o tempo que eu habito
O espaço é infinito o tempo não


manuela de freitas