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A mostrar mensagens de 2004

sem deus nem senhor

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(josé mario branco)
A luz é tão cega
Que nunca se entrega
Só se deixa ver
Numa razão de ser
Sem sequer entender
Os olhos que a vão receber

E o rasto que fica
É uma coisa antiga
Que a gente tem pr'a dar
E só pode encontrar
Quando morrer a procurar

Salvo pelo amor
Só se pode ser salvo pelo amor
No sentido perdido ganhador
Não tem Deus nem Senhor
Esta dor
Anda à solta por aí
Que eu bem a vi
Ai, se eu pudesse parar
Se eu vos pudesse contar

Salvo pelo amor
Não existe derrota para a dor
Com o seu capital triturador
Não tem Deus nem Senhor
É simplesmente dor
Que é o que faz questão de ser
Sem entender
Que a vida toda surgiu
De um sol que nunca se viu

Nem sei se existe


José Mario Branco

maria II

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(pintura de graça morais "maria")

Nova luz, que me rasga dentro d'alma,
Dum desejo melhor me veste a vida...
Outra fada celeste agora leva
Minha débil ventura adormecida.

Não sei que novos horizontes vejo...
Que pura e grande luz inunda a esfera...
Quem, nuvens deste inverno, nesse espaço,
Em flores vos mudou de primavera?!

Se as noites nos enviam mais segredos,
Ao sacudir seus vaporosos mantos,
Se desprendem do seio mais suspiros...
É que dizem teu nome nos seus cantos.

Nem eu sei se houve amor até este dia...
Nem eu sei se dormi até esta hora...
Mas, quando me roçou o teu vestido,
Abri o meu olhar - acordo agora!

antero de quental

maria

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(antero de quental)
Tenho cantado esperanças...
Tenho falado d' amores...
Das saudades e dos sonhos
Com que embalo as minhas dores...

E eu cuidei que era poesia
Todo esse louco sonhar...
Cuidei saber o que é vida
Só porque sei delirar...

Eram fantasmas que a noite
Trouxe, e o dia levou...
À luz da estranha alvorada
Hoje minha alma acordou!

Esquece aqueles cantos...
Só agora sei falar!
Perdoa-me esses delírios...
Só agora soube amar

antero de quental

amália...5 anos

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"Desde que existe a morte, imediatamente a vida é absurda.
Sempre pensei assim."

amália rodrigues

fado...

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(desenho de regine von chossy "nackt")

fado...
c
a
n
t
o
da
a
l
m
a

...dispo-me, tiro a máscara

no
palco
da
v
i
d
a

e

sou !
ruiluis

chuva

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(chuva que bate.../ fonte : www.usina.com)

As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir

Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir

São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder

Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer

A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera

Ai... meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob chuva
há instantes morrera

A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade
jorge fernando

rua do silencio

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(rua... / fonte : www.refugio.blogs.sapo.pt)
na rua do silencio
é tudo muito mais ausente
até foge o luar
e até a vida é pranto
não há juras de amor
não há quem nos lamente
e o sol quando lá vai
é pra deitar quebranto

na rua do silencio
o fado é mais sombrio
e as sombras de uma flor
não cabem lá também
a rua tem destino
e o seu destino frio
não tem sentido algum
não passa lá ninguem

na rua do silencio
as portas tão fechadas
e até o sonho cai
sem fé e sem ternura
na rua do silencio
há lagrimas cansadas
na rua do silencio
é sempre noite escura

antónio sousa freitas

a minha rua

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(rua de lisboa)
Mudou muito a minha rua
Quando o outono chegou
Deixou de se ver a lua
Todo o transito parou

Muitas portas estão fechadas
Já ninguém entra por elas
Não há roupas penduradas
Nem há cravos nas janelas

Não há marujos na esquina
De manhã não há mercado
Nunca mais vi a varina
A namorar com o soldado

O padeiro foi-se embora
Foi-se embora o professor
Na rua só passa agora
O abade e o doutor

O homem do realejo
Nunca mais por lá passou
O Tejo já não o vejo
Um grande prédio o tapou

O relógio da estação
Marca as horas em atraso
E o menino do pião
Anda a brincar ao acaso

A livraria fechou
A tasca tem outro dono
A minha rua mudou
Quando chegou o outono

Há quem diga "ainda bem",
Está muito mais sossegada'
Não se vê quase ninguém
E não se ouve quase nada

Eu vou-lhes dando razão
Que lhes faça bom proveito
E só espero pelo verão
P'ra pôr a rua a meu jeito


Manuela de Freitas

a luz de lisboa (claridade)

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(manuela de freitas) Quando Lisboa escurece
E devagar adormece
Acorda a luz que me guia
Olho a cidade e parece
Que é de tarde que amanhece
Que em Lisboa é sempre dia

Cidade sobrevivente
de um futuro sempre ausente
de um passado agreste e mudo
Quanto mais te enches de gente
Mais te tornas transparente
Mais te redimes de tudo

Acordas-me adormecendo
E dos Sonhos que vais tendo
Faço a minha realidade
E é de noite que eu acendo
A luz do dia que aprendo
Com a tua claridade
Manuela de Freitas

primavera

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(david mourão-ferreira) Todo o amor que nos prendera
Como se fora de cera
Se quebrava e desfazia
Ai funesta primavera
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia

E condenaram-me a tanto
Viver comigo meu pranto
Viver, viver e sem ti
Vivendo sem no entanto
Eu me esquecer desse encanto
Que nesse dia perdi

Pão duro da solidão
É somente o que nos dão
O que nos dão a comer
Que importa que o coração
Diga que sim ou que não
Se continua a viver

Todo o amor que nos prendera
Se quebrara e desfizera
Em pavor se convertia
Ninguém fale em primavera
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia
david mourão-ferreira

lágrima

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(amália rodrigues)
Cheia de penas me deito
E com mais penas me levanto
Já me ficou no meu peito
O jeito de te querer tanto

Tenho por meu desespero
Dentro de mim o castigo
Eu digo que não te quero
E de noite sonho contigo

Se considero que um dia hei-de morrer
No desespero que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile no chão
E deixo-me adormecer

Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias de chorar
Por uma lágrima tua
Que alegria me deixaria matar

amália rodrigues

Caravelas

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Florbela Espanca
Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar, já me perdi
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construi
Em trágica loucura as destrui
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim
este mar morto
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!

Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao mar
As que eu lancei à vida, e não voltaram...
Florbela Espanca

Meu Corpo

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Ary dos Santos
Meu corpo
É um barco sem ter porto
Tempestade no mar morto, sem ti.
Teu corpo
É apenas um deserto
Quando não me encontro perto, de ti.
Meus olhos
São as lágrimas do Tejo
Onde fico e me revejo, sem ti.

Quem parte de tão perto nunca leva
As saudades da partida
e as amarras de quem sofre.
Quem fica é que se lembra toda a vida
Da saudade de quem parte
e dos olhos de quem morre.

Não sei
Se o orgulho da tristeza
Nos dói mais do que a pobreza, não sei.
Mas sei
Que estou para sempre presa
Á ternura sem defesa, que eu dei.
Sozinha
Numa casa que é só minha
Espero o teu corpo que eu tinha, só meu.

Se ouvires
O chorar de uma criança
Ou o grito da vingança, sou eu.
Sou eu
De cabelo solto ao vento
Com olhar e pensamento, no teu.
Sou eu
Na raiz do pensamento
Contra ti e contra o tempo, sou eu.

Ary dos Santos