(fernando pessoa) Há uma musica do Povo Nem sei dizer se é um Fado Que ouvindo-a há um ritmo novo No ser que tenho guardado… Ouvindo-a sou quem seria Se desejar fosse ser… É uma simples melodia Das que se aprendem a viver… Mas é tão consoladora A vaga e triste canção… Que a minha alma já não chora Nem eu tenho coração… Sou uma emoção estrangeira, Um erro de sonho ido… Canto de qualquer maneira E acabo com um sentido! fernando pessoa
(pintura de manuela pinheiro "solidão em bola de balão") O tempo com que conto e não dispenso Não limita o espaço do que sou Por isso aparente contrasenso De tanto que te roubo e que te dou No tempo que tenho te convenço Que mesmo os teus limites ultrapasso Sobras do tempo em que te pertenço Mas cabes inteirinha no meu espaço Não sei qual de nós dois veio atrasado Ou qual dessas metades vou roubando Entraste no meu tempo já fechado Ganhando o espaço que me vai sobrando Por isso não me firas com o teu grito O espaço não dá tempo à solidão Não queiras todo o tempo que eu habito O espaço é infinito o tempo não manuela de freitas
Foi assim, era costume Tu vinhas pedir-me lume Ao balcão daquele bar E eu disse que não, primeiro Depois, comprei um isqueiro E até voltei a fumar As noites que nós passamos Quantos cigarros fumámos Tanto lume que eu te dei Um dia acordei com frio Estava o cinzeiro vazio E nunca mais te encontrei Mas ontem, naquele bar De repente, vi-te entrar Foste direita ao balcão Como era o teu costume Vieste pedir-me lume Mas eu disse-te que não Se quando te foste embora Deitei o isqueiro fora Que lume te posso eu dar? Pede a outro que te ajude P'ra bem da minha saúde Eu já deixei de fumar Sem dormir de madrugada Ouvi teus passos na escada Vi da janela, o teu carro Debaixo do travesseiro Encontraste o meu isqueiro E acendeste-me um cigarro Manuela de Freitas https://www.youtube.com/watch?v=U5QfsuqWWZA
Comentários