Acetei o testemunho que passou a amiga charlotte e ai vai... Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser? seria um livro aberto... Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção? sim, o sete-luas do "memorial do convento" de saramago... Qual foi o último livro que compraste? "hei-de amar uma pedra" de a.l.antunes Que livros estás a ler? nenhum... Que livros (5) levarias para uma ilha deserta? "o senhor dos aneis" de tolkien "austerlitz" de sebald "o dicionario da lingua portuguesa" "memoria de elefante"de a.l.antunes "codigo da vinci" de d.brown A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê? à nina por ser uma pessoa de quem eu quero saber o que lhe interessa... à dulce porque também me interessa o que ela acha e à lina porque é uma amiga que gosto imenso...
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o espaço e o tempo
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(pintura de manuela pinheiro "solidão em bola de balão") O tempo com que conto e não dispenso Não limita o espaço do que sou Por isso aparente contrasenso De tanto que te roubo e que te dou No tempo que tenho te convenço Que mesmo os teus limites ultrapasso Sobras do tempo em que te pertenço Mas cabes inteirinha no meu espaço Não sei qual de nós dois veio atrasado Ou qual dessas metades vou roubando Entraste no meu tempo já fechado Ganhando o espaço que me vai sobrando Por isso não me firas com o teu grito O espaço não dá tempo à solidão Não queiras todo o tempo que eu habito O espaço é infinito o tempo não manuela de freitas
memórias de um chapéu
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(aldina duarte)
Quisera então saber toda a verdade
De um chapéu na rua encontrado
Trazendo a esse dia uma saudade
D'algum segredo antigo e apagado
Sentado junto à porta desse encontro
Ficando sem saber a quem falar
Parado sem saber qual era o ponto
Em que devia então eu começar
Parada na varanda estava ela a meditar
Quem sabe se na chuva, no sol, no vento ou mar
E eu ali parado perdi-me a delirar
Se aquela beleza era meu segredo a desvendar
Porém apagou-se a incerteza
Eram traços de beleza os seus olhos a brilhar
E vendo que outro olhar em frente havia
Só não via quem não queria da paixão ouvir falar
Um dia entre a memória e o esquecimento
Colhi aquele chapéu envelhecido
Soltei o pó antigo entregue ao vento
Lembrando aquele sorriso prometido
As abas tinham vincos mal traçados
Marcados pelas penas ressequidas
As curvas eram restos enfeitados
De um corte de paixões então vividas
aldina duarte
sem deus nem senhor
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(josé mario branco)
A luz é tão cega
Que nunca se entrega
Só se deixa ver
Numa razão de ser
Sem sequer entender
Os olhos que a vão receber
E o rasto que fica
É uma coisa antiga
Que a gente tem pr'a dar
E só pode encontrar
Quando morrer a procurar
Salvo pelo amor
Só se pode ser salvo pelo amor
No sentido perdido ganhador
Não tem Deus nem Senhor
Esta dor
Anda à solta por aí
Que eu bem a vi
Ai, se eu pudesse parar
Se eu vos pudesse contar
Salvo pelo amor
Não existe derrota para a dor
Com o seu capital triturador
Não tem Deus nem Senhor
É simplesmente dor
Que é o que faz questão de ser
Sem entender
Que a vida toda surgiu
De um sol que nunca se viu
Nem sei se existe
José Mario Branco
maria II
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(pintura de graça morais "maria")
Nova luz, que me rasga dentro d'alma,
Dum desejo melhor me veste a vida...
Outra fada celeste agora leva
Minha débil ventura adormecida.
Não sei que novos horizontes vejo...
Que pura e grande luz inunda a esfera...
Quem, nuvens deste inverno, nesse espaço,
Em flores vos mudou de primavera?!
Se as noites nos enviam mais segredos,
Ao sacudir seus vaporosos mantos,
Se desprendem do seio mais suspiros...
É que dizem teu nome nos seus cantos.
Nem eu sei se houve amor até este dia...
Nem eu sei se dormi até esta hora...
Mas, quando me roçou o teu vestido,
Abri o meu olhar - acordo agora!
antero de quental
maria
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(antero de quental)
Tenho cantado esperanças...
Tenho falado d' amores...
Das saudades e dos sonhos
Com que embalo as minhas dores...
E eu cuidei que era poesia
Todo esse louco sonhar...
Cuidei saber o que é vida
Só porque sei delirar...
Eram fantasmas que a noite
Trouxe, e o dia levou...
À luz da estranha alvorada
Hoje minha alma acordou!
Esquece aqueles cantos...
Só agora sei falar!
Perdoa-me esses delírios...
Só agora soube amar
antero de quental
chuva
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(chuva que bate.../ fonte : www.usina.com)
As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir
Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir
São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder
Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer
A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera
Ai... meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob chuva
há instantes morrera
A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade jorge fernando
rua do silencio
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(rua... / fonte : www.refugio.blogs.sapo.pt )
na rua do silencio
é tudo muito mais ausente
até foge o luar
e até a vida é pranto
não há juras de amor
não há quem nos lamente
e o sol quando lá vai
é pra deitar quebranto
na rua do silencio
o fado é mais sombrio
e as sombras de uma flor
não cabem lá também
a rua tem destino
e o seu destino frio
não tem sentido algum
não passa lá ninguem
na rua do silencio
as portas tão fechadas
e até o sonho cai
sem fé e sem ternura
na rua do silencio
há lagrimas cansadas
na rua do silencio
é sempre noite escura
antónio sousa freitas
a minha rua
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(rua de lisboa)
Mudou muito a minha rua
Quando o outono chegou
Deixou de se ver a lua
Todo o transito parou
Muitas portas estão fechadas
Já ninguém entra por elas
Não há roupas penduradas
Nem há cravos nas janelas
Não há marujos na esquina
De manhã não há mercado
Nunca mais vi a varina
A namorar com o soldado
O padeiro foi-se embora
Foi-se embora o professor
Na rua só passa agora
O abade e o doutor
O homem do realejo
Nunca mais por lá passou
O Tejo já não o vejo
Um grande prédio o tapou
O relógio da estação
Marca as horas em atraso
E o menino do pião
Anda a brincar ao acaso
A livraria fechou
A tasca tem outro dono
A minha rua mudou
Quando chegou o outono
Há quem diga "ainda bem",
Está muito mais sossegada'
Não se vê quase ninguém
E não se ouve quase nada
Eu vou-lhes dando razão
Que lhes faça bom proveito
E só espero pelo verão
P'ra pôr a rua a meu jeito
Manuela de Freitas
a luz de lisboa (claridade)
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(manuela de freitas) Quando Lisboa escurece
E devagar adormece
Acorda a luz que me guia
Olho a cidade e parece
Que é de tarde que amanhece
Que em Lisboa é sempre dia
Cidade sobrevivente
de um futuro sempre ausente
de um passado agreste e mudo
Quanto mais te enches de gente
Mais te tornas transparente
Mais te redimes de tudo
Acordas-me adormecendo
E dos Sonhos que vais tendo
Faço a minha realidade
E é de noite que eu acendo
A luz do dia que aprendo
Com a tua claridade Manuela de Freitas
primavera
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(david mourão-ferreira) Todo o amor que nos prendera
Como se fora de cera
Se quebrava e desfazia
Ai funesta primavera
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia
E condenaram-me a tanto
Viver comigo meu pranto
Viver, viver e sem ti
Vivendo sem no entanto
Eu me esquecer desse encanto
Que nesse dia perdi
Pão duro da solidão
É somente o que nos dão
O que nos dão a comer
Que importa que o coração
Diga que sim ou que não
Se continua a viver
Todo o amor que nos prendera
Se quebrara e desfizera
Em pavor se convertia
Ninguém fale em primavera
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia david mourão-ferreira
lágrima
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(amália rodrigues)
Cheia de penas me deito
E com mais penas me levanto
Já me ficou no meu peito
O jeito de te querer tanto
Tenho por meu desespero
Dentro de mim o castigo
Eu digo que não te quero
E de noite sonho contigo
Se considero que um dia hei-de morrer
No desespero que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile no chão
E deixo-me adormecer
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias de chorar
Por uma lágrima tua
Que alegria me deixaria matar
amália rodrigues
Caravelas
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Florbela Espanca
Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar, já me perdi
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.
Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construi
Em trágica loucura as destrui
Por minhas próprias mãos de malfadada!
Se eu sempre fui assim
este mar morto
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!
Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao mar
As que eu lancei à vida, e não voltaram... Florbela Espanca
Meu Corpo
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Ary dos Santos
Meu corpo
É um barco sem ter porto
Tempestade no mar morto, sem ti.
Teu corpo
É apenas um deserto
Quando não me encontro perto, de ti.
Meus olhos
São as lágrimas do Tejo
Onde fico e me revejo, sem ti.
Quem parte de tão perto nunca leva
As saudades da partida
e as amarras de quem sofre.
Quem fica é que se lembra toda a vida
Da saudade de quem parte
e dos olhos de quem morre.
Não sei
Se o orgulho da tristeza
Nos dói mais do que a pobreza, não sei.
Mas sei
Que estou para sempre presa
Á ternura sem defesa, que eu dei.
Sozinha
Numa casa que é só minha
Espero o teu corpo que eu tinha, só meu.
Se ouvires
O chorar de uma criança
Ou o grito da vingança, sou eu.
Sou eu
De cabelo solto ao vento
Com olhar e pensamento, no teu.
Sou eu
Na raiz do pensamento
Contra ti e contra o tempo, sou eu.
Ary dos Santos