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Água louca da Ribeira

Água louca da Ribeira, Que corres em cavalgada, Porque não vais devagar? Essa corrida é cegueira... Não vês, nem olhas p'ra nada, Na pressa de ver o mar! Já corri dessa maneira, Nas asas duma ilusão, Na loucura de chegar... Fui deixando pela ladeira, Pedaços do coração, Beijos loucos, sem amar! Vida que foste vivida A correr tão velozmente, Paraste à beira do mar... Agora, vives perdida, São saudades, o que sentes, Por não poderes regressar  Armando Varejão

Tentei fugir da mancha mais escura

Tentei fugir da mancha mais escura que existe no teu corpo, e desisti. Era pior que a morte o que antevi: era a dor de ficar sem sepultura. Bebi entre os teus flancos a loucura de não poder viver longe de ti: és a sombra da casa onde nasci, és a noite que à noite me procura. Só por dentro de ti há corredores e em quartos interiores o cheiro a fruta que veste de frescura a escuridão... Só por dentro de ti rebentam flores. Só por dentro de ti a noite escuta o que me sai, sem voz, do coração. David Mourão-Ferreira

Princesa Prometida

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(Pablo Picasso "Mulher ao Espelho" - copiado em: http://www.brustin.com.br/wordpress/tag/mulher-ao-espelho/)   Há um véu no meu olhar Que a brilhar dá que pensar Nos mistérios da beleza Espelho meu que aconteceu Do que é teu e do que é meu Já não temos a certeza A moldura deste espelho Espelho feito de oiro velho Tem os traços de uma flor Muitas vezes foi partido Prometido e proibido Aos encantos do amor Espelho meu diz a verdade Da idade da saudade À mulher envelhecida Segue em frente na memória Mata a glória dessa história Da princesa prometida Aldina Duarte

princesa prometida - aldina duarte

Quando partiste

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(Foto desconhecida - retirada em http://www.striperonline.com/pictures/reports_2003/full_moon_9_10_03.jpg) Quando partiste foram contigo os meus desejos quando partiste foram contigo os meus abraços vivo agora a mendigar teus falsos beijos ouvindo os risos que tu dás aos meus fracassos quando partiste nunca supus que à despedida ia contigo naufragar a minha vida Não te posso censurar sei bem podes dar a quem quiseres teu calor mas se um dia tu ouvires alguém louco por ti chamar amor Sou eu sou eu sou eu   que nunca te esqueci e sei amor meu bem que te perdi Quando partiste julguei vencer o desespero quando partiste julguei vencer a solidão menti menti para não contar o que te quero mas já sem forças o meu pobre coração pus me a chorar pus me a gritar que na verdade  é tão cruel a voz amarga da saudade Não te posso censurar sei bem podes dar a quem quiseres calor mas se um dia tu ouvires alguém louco por ti chamar amor  Sou eu sou eu sou eu   que nunca...

há uma musica do povo

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(fernando pessoa) Há uma musica do Povo Nem sei dizer se é um Fado Que ouvindo-a há um ritmo novo No ser que tenho guardado… Ouvindo-a sou quem seria Se desejar fosse ser… É uma simples melodia Das que se aprendem a viver… Mas é tão consoladora A vaga e triste canção… Que a minha alma já não chora Nem eu tenho coração… Sou uma emoção estrangeira, Um erro de sonho ido… Canto de qualquer maneira E acabo com um sentido! fernando pessoa
Acetei o testemunho que passou a amiga charlotte e ai vai... Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser? seria um livro aberto... Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção? sim, o sete-luas do "memorial do convento" de saramago... Qual foi o último livro que compraste? "hei-de amar uma pedra" de a.l.antunes Que livros estás a ler? nenhum... Que livros (5) levarias para uma ilha deserta? "o senhor dos aneis" de tolkien "austerlitz" de sebald "o dicionario da lingua portuguesa" "memoria de elefante"de a.l.antunes "codigo da vinci" de d.brown A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê? à nina por ser uma pessoa de quem eu quero saber o que lhe interessa... à dulce porque também me interessa o que ela acha e à lina porque é uma amiga que gosto imenso...

o espaço e o tempo

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(pintura de manuela pinheiro "solidão em bola de balão") O tempo com que conto e não dispenso Não limita o espaço do que sou Por isso aparente contrasenso De tanto que te roubo e que te dou No tempo que tenho te convenço Que mesmo os teus limites ultrapasso Sobras do tempo em que te pertenço Mas cabes inteirinha no meu espaço Não sei qual de nós dois veio atrasado Ou qual dessas metades vou roubando Entraste no meu tempo já fechado Ganhando o espaço que me vai sobrando Por isso não me firas com o teu grito O espaço não dá tempo à solidão Não queiras todo o tempo que eu habito O espaço é infinito o tempo não manuela de freitas

memórias de um chapéu

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(aldina duarte) Quisera então saber toda a verdade De um chapéu na rua encontrado Trazendo a esse dia uma saudade D'algum segredo antigo e apagado Sentado junto à porta desse encontro Ficando sem saber a quem falar Parado sem saber qual era o ponto Em que devia então eu começar Parada na varanda estava ela a meditar Quem sabe se na chuva, no sol, no vento ou mar E eu ali parado perdi-me a delirar Se aquela beleza era meu segredo a desvendar Porém apagou-se a incerteza Eram traços de beleza os seus olhos a brilhar E vendo que outro olhar em frente havia Só não via quem não queria da paixão ouvir falar Um dia entre a memória e o esquecimento Colhi aquele chapéu envelhecido Soltei o pó antigo entregue ao vento Lembrando aquele sorriso prometido As abas tinham vincos mal traçados Marcados pelas penas ressequidas As curvas eram restos enfeitados De um corte de paixões então vividas aldina duarte

sem deus nem senhor

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(josé mario branco) A luz é tão cega Que nunca se entrega Só se deixa ver Numa razão de ser Sem sequer entender Os olhos que a vão receber E o rasto que fica É uma coisa antiga Que a gente tem pr'a dar E só pode encontrar Quando morrer a procurar Salvo pelo amor Só se pode ser salvo pelo amor No sentido perdido ganhador Não tem Deus nem Senhor Esta dor Anda à solta por aí Que eu bem a vi Ai, se eu pudesse parar Se eu vos pudesse contar Salvo pelo amor Não existe derrota para a dor Com o seu capital triturador Não tem Deus nem Senhor É simplesmente dor Que é o que faz questão de ser Sem entender Que a vida toda surgiu De um sol que nunca se viu Nem sei se existe José Mario Branco

maria II

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(pintura de graça morais "maria") Nova luz, que me rasga dentro d'alma, Dum desejo melhor me veste a vida... Outra fada celeste agora leva Minha débil ventura adormecida. Não sei que novos horizontes vejo... Que pura e grande luz inunda a esfera... Quem, nuvens deste inverno, nesse espaço, Em flores vos mudou de primavera?! Se as noites nos enviam mais segredos, Ao sacudir seus vaporosos mantos, Se desprendem do seio mais suspiros... É que dizem teu nome nos seus cantos. Nem eu sei se houve amor até este dia... Nem eu sei se dormi até esta hora... Mas, quando me roçou o teu vestido, Abri o meu olhar - acordo agora! antero de quental

maria

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(antero de quental) Tenho cantado esperanças... Tenho falado d' amores... Das saudades e dos sonhos Com que embalo as minhas dores... E eu cuidei que era poesia Todo esse louco sonhar... Cuidei saber o que é vida Só porque sei delirar... Eram fantasmas que a noite Trouxe, e o dia levou... À luz da estranha alvorada Hoje minha alma acordou! Esquece aqueles cantos... Só agora sei falar! Perdoa-me esses delírios... Só agora soube amar antero de quental

amália...5 anos

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"Desde que existe a morte, imediatamente a vida é absurda. Sempre pensei assim." amália rodrigues

fado...

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(desenho de regine von chossy "nackt") fado... c a n t o da a l m a ...dispo-me, tiro a máscara no palco da v i d a e sou ! ruiluis

chuva

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(chuva que bate.../ fonte : www.usina.com) As coisas vulgares que há na vida Não deixam saudades Só as lembranças que doem Ou fazem sorrir Há gente que fica na história da história da gente e outras de quem nem o nome lembramos ouvir São emoções que dão vida à saudade que trago Aquelas que tive contigo e acabei por perder Há dias que marcam a alma e a vida da gente e aquele em que tu me deixaste não posso esquecer A chuva molhava-me o rosto Gelado e cansado As ruas que a cidade tinha Já eu percorrera Ai... meu choro de moça perdida gritava à cidade que o fogo do amor sob chuva há instantes morrera A chuva ouviu e calou meu segredo à cidade E eis que ela bate no vidro Trazendo a saudade jorge fernando

rua do silencio

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(rua... / fonte : www.refugio.blogs.sapo.pt ) na rua do silencio é tudo muito mais ausente até foge o luar e até a vida é pranto não há juras de amor não há quem nos lamente e o sol quando lá vai é pra deitar quebranto na rua do silencio o fado é mais sombrio e as sombras de uma flor não cabem lá também a rua tem destino e o seu destino frio não tem sentido algum não passa lá ninguem na rua do silencio as portas tão fechadas e até o sonho cai sem fé e sem ternura na rua do silencio há lagrimas cansadas na rua do silencio é sempre noite escura antónio sousa freitas

a minha rua

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(rua de lisboa) Mudou muito a minha rua Quando o outono chegou Deixou de se ver a lua Todo o transito parou Muitas portas estão fechadas Já ninguém entra por elas Não há roupas penduradas Nem há cravos nas janelas Não há marujos na esquina De manhã não há mercado Nunca mais vi a varina A namorar com o soldado O padeiro foi-se embora Foi-se embora o professor Na rua só passa agora O abade e o doutor O homem do realejo Nunca mais por lá passou O Tejo já não o vejo Um grande prédio o tapou O relógio da estação Marca as horas em atraso E o menino do pião Anda a brincar ao acaso A livraria fechou A tasca tem outro dono A minha rua mudou Quando chegou o outono Há quem diga "ainda bem", Está muito mais sossegada' Não se vê quase ninguém E não se ouve quase nada Eu vou-lhes dando razão Que lhes faça bom proveito E só espero pelo verão P'ra pôr a rua a meu jeito Manuela de Freitas

a luz de lisboa (claridade)

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(manuela de freitas) Quando Lisboa escurece E devagar adormece Acorda a luz que me guia Olho a cidade e parece Que é de tarde que amanhece Que em Lisboa é sempre dia Cidade sobrevivente de um futuro sempre ausente de um passado agreste e mudo Quanto mais te enches de gente Mais te tornas transparente Mais te redimes de tudo Acordas-me adormecendo E dos Sonhos que vais tendo Faço a minha realidade E é de noite que eu acendo A luz do dia que aprendo Com a tua claridade Manuela de Freitas

primavera

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(david mourão-ferreira) Todo o amor que nos prendera Como se fora de cera Se quebrava e desfazia Ai funesta primavera Quem me dera, quem nos dera Ter morrido nesse dia E condenaram-me a tanto Viver comigo meu pranto Viver, viver e sem ti Vivendo sem no entanto Eu me esquecer desse encanto Que nesse dia perdi Pão duro da solidão É somente o que nos dão O que nos dão a comer Que importa que o coração Diga que sim ou que não Se continua a viver Todo o amor que nos prendera Se quebrara e desfizera Em pavor se convertia Ninguém fale em primavera Quem me dera, quem nos dera Ter morrido nesse dia david mourão-ferreira

lágrima

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(amália rodrigues) Cheia de penas me deito E com mais penas me levanto Já me ficou no meu peito O jeito de te querer tanto Tenho por meu desespero Dentro de mim o castigo Eu digo que não te quero E de noite sonho contigo Se considero que um dia hei-de morrer No desespero que tenho de te não ver Estendo o meu xaile no chão E deixo-me adormecer Se eu soubesse que morrendo Tu me havias de chorar Por uma lágrima tua Que alegria me deixaria matar amália rodrigues